A vida e a literatura — Parte 1

A literatura sempre fez parte da minha vida, mas nunca dei muita importância além da diversão que ela me proporcionava…

O que me fez mudar?

Há umas semanas, estava passeando pelo Twitter/X e vi o seguinte meme, compartilhado por um amigo:

“Você tem bastante conhecimento sobre espiritualidade. Impressionante. Muito bacana. Agora vejamos como você aplica todo esse conhecimento na sua vida pessoal”.

Ver isso me marcou, achei que valia a pena trazer para um periódico. Não é meu intuito compartilhar alguma cena específica da minha vida, seja para provar algum conhecimento ou para sinalizar virtude.

O que quero mais é mostrar o processo que passei até entender o valor que a literatura tem, para além do entretenimento.

Um início desajeitado

Assim como qualquer aprendizado, retirar coisas elevadas da literatura tem os seus erros no processo. Seja ler os livros errados, ter uma motivação fraca, não saber o que buscar etc. Enfim, tudo isso contribui para uma postura de quem não sabe o que quer com aquela atividade. E sem um objetivo claro, a chance de desistir cresce facilmente.

Foi o que aconteceu comigo em 2016. Com a minha mudança de mentalidade ao converter-me católico, uma das pessoas que julguei boa conselheira dizia: leia 50 livros por ano, no mínimo; e leia coisas dos mais variados assuntos. Desse modo, passeei por vários autores excelentes, a meu ver da época: George Orwell, Carl Sagan, Machado de Assis etc. Todas elas foram leituras que me proporcionaram diversão e até mesmo uma reflexão. Mas se me perguntarem hoje o que extraí delas e o que me fez gostar de cada uma, minha memória vai falhar. Naquele momento, a literatura ficou tão relevante para minha vida quanto qualquer filme ou música: era só mais uma experiência prazerosa. Com o tempo, essa prática de leitura foi ficando morna e inconstante, o que minou muito seu potencial.

Uma virada de chave

Por bons anos segui nesse caminho sem constância, de ler hora ou outra e de escrever quando viesse a inspiração. Até que conheci o professor Gurgel. Na sua página e nos seus cursos, ele foi mostrando o caminho para aprender com essa arte, consertando os erros que mencionei:

  • Motivação: por que ler? Todas as formas de arte procuram elevar nossos pensamentos a coisas superiores, eternas. Mas a literatura permite adentrar em outra dimensão, pois acompanhamos o raciocínio e as emoções de uma personagem ou de um autor diretamente. Enquanto num filme ou numa pintura, temos apenas uma visão externa e indireta das coisas, do mesmo jeito que na vida real.
  • Material: o que ler? Ora, se queremos educar nosso pensamento com coisas elevadas, é necessário buscar os autores que versam sobre elas. E os clássicos providenciam justamente isso, por terem resistido ao teste do tempo; tratam sobre assuntos que permaneceram relevantes a homens de diferentes épocas; refletem o que verdadeiramente aflige o ser humano.
  • Conhecimento: o que procurar? Depois de comprometer-se a investigar a tradição literária, como adquirir esse conhecimento para a vida? Aqui, relaciono com um periódico anterior, em que falo como temos esse desejo de falar, mas que a sabedoria exige silêncio e atenção para ouvir o que o outro tem a dizer. Na leitura, também estamos em um diálogo com o autor; podemos estabelecer paralelos com situações que vivemos, pessoas que conhecemos. No entanto, é necessário não ter noções prévias e, apenas com nosso conhecimento de mundo, analisar as entrelinhas.

Um exemplo

Para finalizar, gostaria de mostrar uma aplicação dessa “técnica”, com um xodó da minha estante: Memórias póstumas de Brás Cubas. Creio que qualquer um já tenha, no mínimo, ouvido falar desse romance, que inaugurou o Realismo de Machado com a dedicatória do protagonista ao verme que primeiro roeu as carnes de seu cadáver. Achei propício trazer esse exemplar não só pelo meu gosto, mas porque vemos o desenrolar de Brás Cubas desde o seu nascimento até a sua morte. Daí, ao analisarmos como ele tocou sua vida, talvez possamos extrair uma postura adequada para tocar a nossa.

E, francamente, a vida de Brás Cubas não é das mais agradáveis. Desde cedo, os parentes viviam projetando expectativas pessoais no garoto, mas o que realmente o influenciou foi o excessivo amor próprio, o valor superior das aparências em detrimento à essência (mais parecer do que ser), culminando numa mania de grandeza. Conforme foi crescendo, essa mania só ficou ainda mais cristalizada, com a influência de um amigo que dava maus conselhos e com as próprias escolhas de Brás, que tratava os outros sempre com um objetivo pessoal em mente, sem considerar o valor do próximo. Enfim, essa atitude de conduzir a vida pelas paixões culminou numa vida de adultério com quem deveria ser sua esposa, além de não alcançar a vocação que queria; não transmitiu seu legado e morreu miserável.

Conclusão

Nenhuma das minhas falas está explícita no livro, além dos seus arrependimentos à beira da morte. Mas ao ler atentamente, é possível enxergar padrões nas atitudes de Brás, ver como ele pensa e, principalmente, reparar como esses pensamentos se traduzem nas suas ações. E ter essa postura de agir segundo as paixões, alimentar o egoísmo e não o verdadeiro amor, de doação, o levou a uma morte triste, de modo que não sobrou ninguém para receber sua homenagem. Imagino que ninguém queira chegar ao leito de morte com essa sensação amarga. Portanto, é possível retirar algo de valor na obra; basta ter esse olhar atento, e ver o que há de humano ali dentro para que possamos nos identificar, seja para imitarmos ou para descartarmos.

Ainda há mais o que comentar, mas deixo para uma próxima oportunidade.

Pax et bonum, fratelli!

About the author

Sou engenheiro e escritor. Faço artigos compartilhando meu processo criativo, reflexões pessoais e escrevo resenhas sobre os livros e filmes que vejo.

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