
Muitas coisas podem ser chamadas de bonitas: paisagens, discursos, demonstrações matemáticas… Mas elas são tão diferentes umas das outras… O que há em comum, que podemos chamar de beleza?
Antes de começarmos…
Para minha primeira resenha, achei bem apropriado que ela fosse sobre um dos meus principais lemas: a beleza importa! Pois então, venho aqui comentar um pouco das minhas impressões sobre “Beleza”, de Roger Scruton.
Falando rapidamente sobre o autor, ele foi um filósofo inglês especializado em estética — o ramo da filosofia que se ocupa do estudo da natureza, da beleza e da arte —, e viveu na segunda metade do século XX até 2020. Pela época, já dá para ver que eu fiz um grande salto temporal para minha primeira resenha; não percorri um caminho histórico desde os gregos até chegar aos dias atuais. Mas eu estava salivando por ler esse livro da minha irmã e ele se propõe a explicar os conceitos que usa, a leitura se mostra suficiente para entender a discussão do autor.
Uma visão de fora
Feita a explicação prévia, vamos à obra!
Eu comecei este artigo com uma das primeiras falas de Scruton: a beleza se manifesta sob diferentes formas. Antes de investigá-las, o autor propõe alguns critérios (ele os chama de chavões) para nos ajudar a alcançar o conceito de beleza. Assim, será possível aplicá-lo às diferentes formas e enxergar o valor dela no mundo. Estes são os chavões:
- A beleza nos agrada;
- Uma coisa pode ser mais bela que outra;
- A beleza sempre é motivo para nos ocuparmos da coisa bela;
- A beleza é objeto de juízo de gosto;
- Esse juízo diz respeito ao objeto, não à pessoa;
- O juízo de beleza vem da experiência pessoal.
Kant é uma das principais figuras que aparecem no livro, e sua tese sobre a beleza é a de encontrar um conceito que qualquer ser racional é capaz de alcançar, pois se algo é verdadeiro, é mister que qualquer pessoa consiga compreendê-lo, por mais que não saiba expressá-lo. Pensando nisso, Scruton extrai esses chavões, que parecem estar em conformidade com o que qualquer pessoa interpretaria como belo. No entanto, Scruton propõe os três últimos chavões com o objetivo de ir contra a tese subjetivista de que a beleza é algo pessoal; se algo é belo, é uma característica do objeto, não da pessoa que o contempla. Daí temos um conceito inicial de beleza: o atributo de um objeto na forma em que se apresenta e que desperta, em nós, um interesse em contemplá-lo.
Partindo dessa definição prévia, Scruton aborda quatro tipos de beleza: a humana, a natural, a cotidiana e a artística.
A beleza humana
Ao entrar nesse tópico, Scruton faz um questionamento pertinente: qual o papel do desejo sexual na contemplação de uma pessoa bonita? Para respondê-lo, ele recorre a Platão; e, sinceramente, a sua interpretação ficou marcada em mim por todo o restante do livro: Platão explica sua visão sobre o desejo a partir da famosa Teoria das Formas/Ideias — a realidade mais elevada é composta de ideias e formas abstratas —, e que a forma superior do desejo (e união) sexual não constitui uma posse da outra pessoa, mas uma contemplação de seu interior.
Assim, não ocorre apenas uma reprodução biológica; a nossa alma ascende a coisas superiores, imortais, reparando nas virtudes do outro, se admira das coisas íntimas que lhe foram concedidas, até que, enfim, busca imitá-las na sua própria intimidade. A beleza humana não está apenas no formato da boca, dos ombros ou das mãos da pessoa admirada, mas na forma em que esses atributos atuam como uma porta de entrada para um tesouro escondido.

Eu disse que essa interpretação me marcou por conta de um trecho de um capítulo anterior. Nele, Scruton contou que a Basílica de Santa Sofia já foi igreja, hospital, mesquita e museu, mas nunca foi derrubada; sua majestade e beleza guardam um valor que a torna mais importante do que o uso atribuído a ela. Quando o autor expôs aquela ideia de Platão sobre o desejo e a intimidade, fiz uma correlação que ficou marcada como lição pessoal: a beleza é uma vitrine para se conectar com o divino, com as coisas elevadas. Ele enfim completa essa visão, quando fala sobre a beleza artística, mas já fica aqui uma ideia preliminar.
A beleza natural

A natureza parece ser um assunto ainda mais pertinente quando se fala de beleza; quantos poetas e pintores não representaram paisagens belíssimas, que podemos admirar por vários minutos… E mesmo nós, cidadãos comuns, quantas vezes não nos flagramos olhando para um céu bonito?
Parece ser algo acessível a qualquer ser humano enxergar o belo na natureza, o que seria apetitoso para a tese de Kant. Ele, porém, se limita a dizer que a beleza está mais na forma e harmonia dos seres vivos; uma paisagem pode ser corrompida por uma casa, por exemplo, ou então o nosso encanto por essa paisagem seria mais algo interno e particular do que algo intrínseco a ela. Não está inteiramente errado, mas os sentimentos provocados pela beleza natural também têm seu valor: pela sua majestade e pelas várias possibilidades que nos apresenta, contemplamos ali uma certa esperança do homem, vemos mais claramente os nossos anseios mais profundos. Mas estou me adiantando um pouco…
A beleza cotidiana
Este é, sem dúvida, o tipo de beleza mais inesperado para a discussão, mas ao mesmo tempo, um dos mais importantes, e que nos leva ao lema que expus no início. Embora a beleza da Basílica de Santa Sofia ou da Monalisa sejam deslumbrantes, a maioria das pessoas nunca as verá; passará a sua vida limitada aos prédios da sua cidade, à mesma igreja do seu batismo e casamento, aos mesmos lugares. E aí é importante que as coisas sejam belas.

Seja na própria casa, em que um jardim bem cuidado e pinturas penduradas refletem uma projeção dos próprios interesses, conferindo ao morador um pertencimento na sociedade; seja na harmonia das casas e ruas, que nos dá senso de unidade com outras pessoas. Em todas essas coisas, buscamos que elas sejam belas não apenas pela aparência, mas visando uma ordem exterior (uma sociedade ordenada) que nos inspira a uma ordem interior (pessoas íntegras).
Por isso digo que a beleza cotidiana é especialmente importante: ela é o fator que continuamente nos incentiva a sermos a melhor versão de nós mesmos. Quem negará que faz toda a diferença a roupa com a qual você vai para o trabalho? Não se trata de manter um acordo silencioso com outros funcionários, mas de ter um comprometimento interno com o serviço prestado, com o bem que se faz à humanidade. Ter um juízo de gosto, então, não se trata apenas de reconhecer algo como belo ou feio, mas de encontrar uma ordenação do mundo em vista de uma perfeição individual.
A beleza artística
Mencionei mais acima como a beleza natural nos permite contemplar os anseios mais profundos. Pois bem, é chegada a hora de falar sobre isso.
Scruton abre esse capítulo falando de um dos motivos de, na média, as pessoas não se interessarem mais por arte. A maioria das obras modernas se enquadra em algum destes adjetivos: abstrata, chocante, ou mesmo feia. Ainda que elas tenham alguma história ou contexto, não é trivial extraí-los de cara para entender o que de fato está sendo representado; e mais importante ainda, é difícil ter uma identificação com aquilo; não há nenhum drama humano evidente que nos eleve à contemplação da obra. Se nossas aspirações interiores não encontram uma expressão artística, por que se incomodar com elas?

Scruton colocou uma série de frases belíssimas nesse capítulo para explicar o apelo que a arte tem no espírito humano, mas vou deixar aqui apenas duas para ilustrar: “[…] melhores tentativas de explicar a beleza das obras artísticas […] envolvem a sua vinculação metafórica à ação, à vida e à emoção do homem.” e “[…] vemo-nos divididos entre as graves exigências da razão, que nos pede para viver de acordo com as regras, e as tentações dos sentidos, que nos convidam a buscar novas experiências. No jogo elevado pela arte até o plano da contemplação livre, a visão da vida humana em plenitude nos é oferecida.”
Depois dessa realidade da beleza artística, creio que tirei a lição principal deste livro para a vida: a beleza é um valor tão forte quanto a verdade e a bondade; ela comunica, pelo véu da aparência, as aspirações e desejos profundos do homem pela eternidade, pelo amor, e por toda classe de sentimento que nos traga plenitude. Creio que ninguém duvidará que todas essas coisas importam para o cultivo da alma. Desse modo, a conclusão é óbvia: a beleza importa!
Conclusão
O autor elabora outros tópicos, como o motivo de o mundo moderno rejeitar essa ideia absoluta de beleza, a diferença entre arte erótica e pornografia, entre outros, mas prefiro deixar que os curiosos descubram isso pelo livro. Há trechos lá que valem serem descobertos por conta própria.
Esse é um tema particularmente especial para mim. Quando estou a fazer uma caminhada entre as árvores, quando vejo uma pintura agradável, são alguns dos momentos em que vejo que a vida vale a pena. Porque a beleza aponta para o transcendental, para as coisas que o homem busca a vida toda. E embora não seja acessível a todos nós contemplar as maiores obras de arte, ou mesmo produzi-las, creio que é acessível a todos nós cultivar a beleza nas nossas vidas: embelezando nossa casa, cuidando da nossa aparência, consumindo boas músicas… Tudo isso é extremamente útil para as coisas que realmente importam, que nos tornam pessoas elevadas.
O livro é excelente e creio que é uma ótima introdução ao tema! Tive dificuldade em um ou outro trecho, mas talvez seja porque o Roger Scruton gosta de se estender um pouco em teoria musical e arquitetura; aprecio as duas artes, mas não tenho tanto interesse em estudá-las quando as comparo à pintura e à literatura, por exemplo. Enfim, recomendo bastante!
Essa foi, então, a minha resenha! Caso tenha se interessado, também recomendo fortemente a resenha da Tatiana Feltrin, que traz uma visão um pouco mais detalhada sobre a obra!
Pax et bonum, fratelli!
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