Orgulho e preconceito: uma lição de estética e de virtudes

Depois de Romeu e Julieta, por que alguém se preocuparia em escrever uma história de amor? Shakespeare colocou uma expectativa insuperável no gênero.

Por que ler um romance inglês do século XIX?

Há alguns anos, assisti a Orgulho e preconceito, por ser um dos filmes favoritos de uma amiga. Lembro de ter gostado, mas não achei nada especial. Mas, por conta de uma cena, resolvi revê-lo com minha digníssima; ela, por sua vez, me convenceu a ler o livro antes. Depois de ambas as experiências, tirei algumas conclusões interessantes, e acho que vale a pena compartilhá-las.

Orgulho e preconceito: cena em que Elizabeth e Darcy trocam olhares.

Um pouco de água com açúcar

Aos que nunca viram ou leram nenhuma das obras, o enredo gira em torno de dois personagens principais: Elizabeth Bennet, a segunda  mais velha de cinco irmãs, que vive em uma família “de uma classe social inferior” com o risco de, com a morte do pai, perder sua propriedade e que, para se precaver desse problema, busca casar as filhas; e Sr. Darcy, um nobre da alta sociedade inglesa, que está de visita em Netherfield, a região onde os Bennet moram.

Em meio aos bailes e tentativas de casamento de Jane, a Bennett mais velha (e mais bonita), com um amigo de Darcy, Elizabeth acaba topando com Darcy e as pessoas ao seu redor várias vezes durante meses. No entanto, a cada encontro, ela crê mais firmemente que ele não passa de um orgulhoso, egoísta e autocentrado, e usa das boas maneiras para mascarar seu caráter. Até que, para surpresa dela, Darcy demonstra mudanças de atitude, explica os motivos de suas ações — erroneamente interpretadas por Elizabeth — e provoca nela uma mudança de olhar que a assusta e a força a enfrentar seus próprios sentimentos conflitantes.

A princípio, não parece fugir muito de um modelo “De inimigos a amantes”, e por isso não fiquei muito interessado à primeira vista. Mas havia algum elemento interessante e que me fez apreciar o filme, e apenas numa segunda visita pude percebê-lo; e, ao partir para a leitura, também reparei nesse detalhe, mas de uma outra perspectiva.

Uma folha de camomila num pires, por favor

Percebi esse detalhe em uma cena do filme, em que Elizabeth está à beira de uma falésia, com o vento balançando seus cabelos, enquanto uma música calma preenche o ambiente, sem nenhuma fala; e, atrás dela, um campo num verde vivo e o pôr do sol alaranjado. Aquela construção de cenário tornou toda a cena aconchegante, e pude simplesmente apreciar o momento. A partir daquela cena, reparei nas vestimentas, na arquitetura das casas… O ambiente rural da Inglaterra — sem as chuvas constantes — era muito convidativo e agradável; qualquer história que se passasse ali captaria minha atenção.

Admito que bato um bocado nessa tecla de que a beleza importa, mas o que posso fazer se ela verdadeiramente traz conforto ao espírito? Os detalhes são importantes; acrescente uma folha a uma xícara de água e terás um chá, calmante natural; acrescente um pires e o encontro será mais charmoso. Do mesmo modo, torne um cenário agradável, e sua história chamará mais a atenção.

Traje: gala

Ao perceber esse impacto do ambiente no filme, comecei a imaginar as cenas do livro mais vivamente; estava mais atento às palavras. E isso me levou a observar dois detalhes: a construção dos diálogos (internos e externos) e o caráter dos personagens.

No primeiro caso, faz parte da linguagem de cada arte ter um ponto forte em relação a outra. No cinema, expor o pensamento de um personagem sem quebrar a imersão não é tão trivial quanto no romance. Em Orgulho e preconceito, isso se intensifica nos pensamentos de Elizabeth; humanos, falhos, mas ainda assim elevados. Como a história e o estilo estão fortemente ligados na escrita, esses momentos ajudam a engrandecer todo o conjunto da obra.

Quanto ao caráter dos personagens, os diálogos também ajudam bastante a reforçar sua autenticidade… Quando Elizabeth descobre, por meio de uma carta, que Darcy não é o homem que ela pré-julgava que ele fosse, acontece um conflito muito grande na sua cabeça: “devo seguir a minha opinião sobre ele ou a verdade?”. A maturidade que se exige em admitir um erro próprio, por mais doloroso que seja, é uma virtude, e merece ser elogiada. Do mesmo modo, quando Darcy aprende que suas ações causaram um sofrimento alheio, ele trata de corrigi-las sem buscar crédito com ninguém; simplesmente faz o certo porque quer.

Essa postura de cada um — reconhecer seus erros e agir sobre eles — e a forma como ela é exposta elevam ainda mais o nível do romance.

Veredito

Orgulho e preconceito não é a melhor história de amor que já li nem vi na tela da televisão… Ainda assim, tanto a experiência cinematográfica quanto a literária são agradáveis, além de passarem uma lição importante: reconhecer e superar os próprios defeitos é necessário para amar bem.

Além disso, a forma de Jane Austen de contar essa história faz toda a diferença: personagens afrontosos e irônicos, reflexões honestas e edificantes, tudo coopera para transformar uma história simples em um clássico da literatura mundial.

Pax et bonum!

About the author

Sou engenheiro e escritor. Faço artigos compartilhando meu processo criativo, reflexões pessoais e escrevo resenhas sobre os livros e filmes que vejo.