
Em todo meio de transporte (avião, ônibus, Uber, a pé etc.), inevitavelmente nos depararemos com pessoas em todas as situações de vida — moradores de rua, pais de família, aposentados — que, se o ouvinte permitir, conversam desde o início até o fim do seu trajeto.
No último recesso de fim de ano, tanto a ida como a volta a BH foram abençoadas com presenças formidáveis: pessoas que gostam de conversar. Tão acostumado ao mote urbano “Cuida da tua vida”, sempre me surpreende quando puxam assunto num transporte público.
Ouvindo essas pessoas, esse fenômeno me intrigou: por que há pessoas que sentem essa necessidade de falar?
Onde está teu tesouro?

Sempre atribuí parte desse fenômeno a um grau de extroversão, o que já chegou a me irritar. Porém, tentei ser mais honesto e Deus corrigiu minha interpretação: os extrovertidos preferem construir um castelo cujo tesouro é acessível e comunitário; já os introvertidos optam por erigirem masmorras e fortalezas para que apenas os escolhidos alcancem seu coração.,
Não há como apontar certo ou errado para essas perspectivas, mas me parece que ambas fundamentam-se na ideia de que cada indivíduo, com a sua história, constrói um repertório artístico, técnico, cultural etc. que, se não é contaminado pelo egoísmo, busca outro receptáculo.
Daí surge esse movimento da conversação espontânea: há um desejo inato de compartilhar a própria experiência, como um meio de universalizar aquilo que é bom, belo e verdadeiro.
Fator necessidade

Outros falantes de interesse para essa teoria são os idosos e os moradores de rua, que igualmente apresentam essa tendência de puxar assunto. Porém, acredito que isso venha de outra necessidade: o amor.
Um idoso já tem anos suficientes para ter visto os pais, amigos e até o cônjuge serem enterrados; à medida que os anos passam, fica ainda mais solitário. Analogamente, embora o morador de rua não (necessariamente) perca fisicamente estes entes queridos, muitas vezes os perde emocionalmente, fica desamparado e sujeito à própria sorte.
Ambos os perfis se veem distantes das pessoas e próximos apenas da própria companhia, o que pode entristecer-nos… Assim, quando têm a oportunidade de que alguém os ouça atentamente, agarram com unhas e dentes.
Uma forma de amor

Comecei a meditar nesse aspecto enquanto lia sobre a oração, nosso diálogo com Deus. Então, Ele me puxou a atenção para esse senhor no ônibus que contava suas histórias, e lembrei-me de uma frase que ouvi no Opus Dei: uma pessoa é sempre melhor do que um livro.
Após essa reflexão, penso que oportunidade temos de amar ao próximo quando pomos nosso ouvido a seu serviço. Seja para que aquele tesouro tenha cada vez mais donos ou para que aliviemos a solidão e desesperança dos necessitados, uma simples conversa para aqueles cuja língua exige estímulos recorrentes pode transformar o seu dia.
Que Deus nos abençoe e ajude a sermos melhores ouvintes! Pax et bonum, fratelli!