Quis est Ego? — Uma reflexão sobre personalidades

Por detrás das atitudes cotidianas, pensamentos e carne, há uma pessoa inacessível aos homens, aos anjos e aos demônios.

Quem é esta pessoa?

Deixo avisado que os fundamentos deste solilóquio são puramente os meus pensamentos; fundamentos filosóficos e psicológicos refinados valem um estudo posterior e altamente recomendado aos leitores.

Feito esse esclarecimento, este é um texto que há muito pinica minha alma. Ao passar pelo vale da astrologia, mirar a pradaria dos temperamentos de Hipócrates à direita e contemplar os MBTI à esquerda, minha cabeça não se conformou com nenhuma teoria da personalidade. Em três testes de MBTI feitos ao longo da vida, obtive três resultados diferentes (ISFP, INFP e INFJ). Os signos nunca me desceram. Os temperamentos por muito tempo pareceram suprir essa necessidade de entender o que define o macro das personalidades. Porém, essa constatação gerou um novo comicho: as pessoas não são caixas, que você pode apenas rotular e saber o seu conteúdo!

A partir desse pensamento incômodo, surgiu este artigo! Let’s bora!

Uma teoria de cordas

A teoria da personalidade que exporei aqui começou a surgir na minha cabeça depois de assistir a Whiplash. Nos primeiros vinte minutos, o filme me prendeu: um rapaz conciliando os estudos, o sonho dele de tocar com um grande regente e um relacionamento amoroso? ¡Me gusta! Mas depois que o Fletcher começou a sugar a vida de Neeman, que escolhe abandonar o relacionamento e se humilhar por esse projeto… Broxei totalmente! O filme é uma obra-prima de roteiro, iluminação, trilha sonora etc. No entanto, subjetivamente ele não tinha nenhum apelo para mim.

Em conjunto com essa teoria, comecei a refletir sobre a questão da beleza (novidade hihi). E acredito em beleza objetiva, por exemplo ao comparar a arquitetura gótica vs moderna. No entanto, cada indivíduo terá uma preferência estética.

Essas e outras percepções me levaram a uma imagem mental semelhante a essas cordas, que representariam uma atividade ou interesse qualquer (filmes, esportes, habilidades etc.) : o nível de deformação ou harmonia delas estaria relacionada à sua beleza/qualidade (ou critério equivalente) objetiva; no entanto, a afinidade subjetiva delas está relacionada com o quão entrelaçadas estão entre si (ex.: filmes de drama que abordam o mesmo tema, esportes que exigem raciocínios semelhantes). A ideia dessa teoria é que o agregado das cordas que representam seus interesses apontam para algumas características da personalidade. Não acredito ter autoridade o suficiente para afirmar que revelam a personalidade por completo, se é que isso alcançável ao intelecto humano.

Essa teoria é o que atualmente me faz explicar porque um filme como Flipped ao falar sobre família, amizade e amor romântico, se tornou meu filme favorito, enquanto Cidadão Kane, um clássico no que diz respeito ao jornalismo e à política, não está nem no meu Top 20. Ser excelente é uma coisa; outra é ressoar com o espírito do espectador.

Ruídos irritantes

Como nem tudo são flores, esse exercício de exame de consciência também revela uns podres. Nesse último período eleitoral, minha cabeça foi preenchida de minhocas, e os pensamentos oriundos dessa dinâmica não foram nada agradáveis. Mais de uma vez, ao ler frases de eleitores mais convictos do que eu, me peguei pensando “Mentiroso”.

Agora que estou assistindo The Walking Dead pela primeira vez, essa palavra imediatamente me levou para essa cena do Governador, que desencadeia consequências permanentes e trágicas para o grupo de Rick Grimes. Isso acendeu um sinal amarelo na minha cabeça: “Opa, reflete melhor, não faça um julgamento precipitado!”

Essa associação de imagens se mostrou uma ferramenta muito poderosa na minha vida: há um tempo atrás, estava com dificuldade de lidar com a raiva e os pensamentos que surgiam em decorrência dela; com uma sessão de terapia e uma única frase do Senhor a São Pedro “Enfia a tua espada na bainha!” (João 18, 11) foram suficientes por uma boa temporada para que qualquer fúria minha fosse imediatamente contida.

Atualmente, com minha nova terapeuta, há uma abordagem diferente: na TCC, as emoções são bem-vindas, e é importante acolhê-las, mas não deixá-las ditar as minhas ações se essas emoções não contribuem para o projeto de homem que quero ser. E mais importante do que isso: as emoções e sugestões mentais são apenas isso, sugestões, e não fatos; elas não dizem respeito a quem eu sou. Não é fácil repetir esses lemas, mas certamente ajudam a separar o que é real e o que é fictício… Não ter essa linha demarcando o ruído e o sinal real pode dar uma gastrite chata!

O eterno remédio

Pois então, quis est ego? Quem é o “Eu”, essa pessoa incapaz de ser atribuída a um rótulo diferente do nome que consta no meu RG?

Para responder a essa pergunta, me recordo de uma reflexão interessantíssima do meu padre, Cardeal Guilherme (Ximenes) Uchoas: se você, com o conhecimento de hoje, pudesse voltar no tempo e escolher qualquer mulher no mundo, retirasse todos os seus defeitos, e nascesse no ventre dela, quem você escolheria? A minha resposta foi a que ele disse ser a mais comum: eu escolheria a minha própria mãe (te amo, Dona Cláudia!). Isso mostra que os ditos ruídos, os defeitos, só mascaram a pessoa por trás, e é ela quem instintivamente buscamos nos nossos relacionamentos. Quando os defeitos saem do caminho, não há quem nos tire o amor pelo outro.

Na via humana, poderia falar da terapia, meditação, conversas com amigos, leitura etc. como ferramentas para o autoconhecimento e, consequentemente, maneiras de encontrar esses ruídos para começar o processo de autodesenvolvimento. No entanto, como crente da dualidade corpo-alma que é o ser humano, a dimensão espiritual me parece a forma mais perfeita, segura e universal de alcançar essa compreensão e progredir no combate aos defeitos próprios. Nem todos terão o discernimento, capacidade ou tempo disponível para fazer tudo isso simultaneamente. Mas ir no confessionário quinzenalmente, lamuriar as suas ofensas a um sacerdote por cinco a dez minutos, e separar cinco minutos por dia para falar com Aquele que criou a sua pessoa, que tem o conhecimento perfeito de ti (mais do que seu anjo da guarda e dos demônios que te atormentam)… Isso qualquer um pode fazer com a certeza de que Ele escuta e fornece a cada um a subsistência necessária de cada dia!

Então, quando estiver em dúvida de quem você é, lembre da imagem das cordas para começar a separar características mais básicas, conviva amigavelmente com os sentimentos que martelam no cocuruto e confesse-se/reze. Assim, cada vez mais começarás a enxergar-te da mesma forma que Deus te enxerga: como a pessoa destinada à felicidade eterna e que hoje tem a chance de começar a se transformar nela, uma pequena ação de cada vez!

Pax et bonum, fratelli!

About the author

Sou engenheiro e escritor. Faço artigos compartilhando meu processo criativo, reflexões pessoais e escrevo resenhas sobre os livros e filmes que vejo.

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