O valor do silêncio

No mundo acelerado e tecnológico em que vivemos, com as redes sociais a todo vapor, às vezes é difícil respirar e refletir sobre a nossa vida…

E por que isso importa?

Enquanto fazia minhas orações antes da Missa de domingo passado, lembrei de um conselho que já ouvi de diferentes maneiras: a oração é um diálogo; existe o momento de falar e o momento de ouvir.

Mantive aquela memória pelo resto do sacrifício, e achei que seria pertinente tratar sobre ela aqui. Enquanto escritor, reconheço como fundamental o hábito de escrever todo dia, por motivos que trarei no futuro. O problema é que isso facilmente leva a um constante falar e falar; afinal, estou ali colocando meus pensamentos e histórias no papel, sem ninguém para responder ou criticar. E se o que eu tiver pra falar for raso ou não acrescentar nada a ninguém?

O valor de nossa fala

Como disse, nesse mundo tecnológico e acelerado, ocupamos nosso tempo indo para o trabalho, vendo as redes sociais e cumprindo constantes demandas da nossa atenção. E quando temos um descanso, é tentador desligar o cérebro e ver um filme que nos divirta, ou encontrar os amigos apenas para desafogar dos estresses cotidianos. Será que a vida é só isso? Estressar-se cinco dias por semana, desacelerar nos outros dois e repetir isso até a morte?

Eu não acredito nisso. E se for verdade, creio que valha a pena ir contra a maré. Quão mais agradável é ouvir um apaixonado pelo cinema falar sobre a beleza de caráter de alguma personagem, ou de como a história do filme a ajudou a moldá-la, do que só falar sobre o último jogo do Brasil. Não há nada de errado nisso, mas nesses momentos temos a oportunidade de compartilhar experiências enriquecedoras, que os outros talvez nunca descobrissem; e igualmente temos a oportunidade de ouvir algo instrutivo para nossa vida.

Só tem um “problema”: a boca fala do que o coração está cheio. E para que ele esteja cheio de coisas boas e edificantes, é necessário cultivá-las. Nisso entra a mudança de postura para ir contra a maré: não basta apenas viver, mas ouvir o que a vida tem a nos dizer. Seja pela boca de um amigo ou vendo as atitudes de uma personagem, estamos repletos de oportunidades para extrair algum conhecimento mais elevado do que o cotidiano.

E é esse tipo de conhecimento que será útil em momentos chaves da nossa vida: como lidar com crises no namoro? Como dar bom conselho a um amigo desesperado? Como não ser rabugento ou impaciente quando se precisa conciliar os estresses familiares e as responsabilidades no estudo ou no trabalho? É possível aprender a lidar com tudo isso pela experiência própria, mas ouvir formas como outras pessoas (reais ou não) lidaram com elas parece bem menos doloroso e mais simples.

E o silêncio, onde entra?

Estive falando até agora sobre essa postura de ouvinte e como ela pode beneficiar a nós e às pessoas ao nosso redor. Não tratei sobre o silêncio propriamente por um motivo: ele é um elemento necessário, mas não o objetivo dessa postura. Quando se trata de ouvir um conhecimento da boca de outra pessoa, pressupõe-se que nós nos silenciemos para que ela tenha espaço para falar. E quando se trata da meditação, não só o silêncio físico ajuda na concentração, mas também é bom deixarmos a memória e as paixões de lado; e assim, esforçar-se para que contemplemos aquele tópico com afinco. Calar-se um pouquinho é necessário para crescer em sabedoria.

Então, sem atribuir-me o cargo de mentor, gostaria de propor que mudássemos nossa postura para sermos mais ouvintes. Ouvir mais as pessoas próximas de nós e suas preocupações; ouvir a sabedoria dos autores do passado; ouvir a voz de Deus. E tão importante quanto a postura de ouvinte é lembrar-nos do que ouvimos e parar para refletir sobre elas, ainda que essa pausa tenha que ser durante o banho.

Pax et bonum, fratelli!

About the author

Sou engenheiro e escritor. Faço artigos compartilhando meu processo criativo, reflexões pessoais e escrevo resenhas sobre os livros e filmes que vejo.