
Depois de Romeu e Julieta, por que alguém se preocuparia em escrever uma história de amor? Shakespeare colocou uma expectativa insuperável no gênero.
Há alguns anos, assisti a Orgulho e preconceito, por ser um dos filmes favoritos de uma amiga. Lembro de ter gostado, mas não achei nada especial. Mas, por conta de uma cena, resolvi revê-lo com minha digníssima; ela, por sua vez, me convenceu a ler o livro antes. Depois de ambas as experiências, tirei algumas conclusões interessantes, e acho que vale a pena compartilhá-las.

Um pouco de água com açúcar
Aos que nunca viram ou leram nenhuma das obras, o enredo gira em torno de dois personagens principais: Elizabeth Bennet, a segunda mais velha de cinco irmãs, que vive em uma família “de uma classe social inferior” com o risco de, com a morte do pai, perder sua propriedade e que, para se precaver desse problema, busca casar as filhas; e Sr. Darcy, um nobre da alta sociedade inglesa, que está de visita em Netherfield, a região onde os Bennet moram.
Em meio aos bailes e tentativas de casamento de Jane, a Bennett mais velha (e mais bonita), com um amigo de Darcy, Elizabeth acaba topando com Darcy e as pessoas ao seu redor várias vezes durante meses. No entanto, a cada encontro, ela crê mais firmemente que ele não passa de um orgulhoso, egoísta e autocentrado, e usa das boas maneiras para mascarar seu caráter. Até que, para surpresa dela, Darcy demonstra mudanças de atitude, explica os motivos de suas ações — erroneamente interpretadas por Elizabeth — e provoca nela uma mudança de olhar que a assusta e a força a enfrentar seus próprios sentimentos conflitantes.
A princípio, não parece fugir muito de um modelo “De inimigos a amantes”, e por isso não fiquei muito interessado à primeira vista. Mas havia algum elemento interessante e que me fez apreciar o filme, e apenas numa segunda visita pude percebê-lo; e, ao partir para a leitura, também reparei nesse detalhe, mas de uma outra perspectiva.
Uma folha de camomila num pires, por favor
Percebi esse detalhe em uma cena do filme, em que Elizabeth está à beira de uma falésia, com o vento balançando seus cabelos, enquanto uma música calma preenche o ambiente, sem nenhuma fala; e, atrás dela, um campo num verde vivo e o pôr do sol alaranjado. Aquela construção de cenário tornou toda a cena aconchegante, e pude simplesmente apreciar o momento. A partir daquela cena, reparei nas vestimentas, na arquitetura das casas… O ambiente rural da Inglaterra — sem as chuvas constantes — era muito convidativo e agradável; qualquer história que se passasse ali captaria minha atenção.
Admito que bato um bocado nessa tecla de que a beleza importa, mas o que posso fazer se ela verdadeiramente traz conforto ao espírito? Os detalhes são importantes; acrescente uma folha a uma xícara de água e terás um chá, calmante natural; acrescente um pires e o encontro será mais charmoso. Do mesmo modo, torne um cenário agradável, e sua história chamará mais a atenção.
Traje: gala
Ao perceber esse impacto do ambiente no filme, comecei a imaginar as cenas do livro mais vivamente; estava mais atento às palavras. E isso me levou a observar dois detalhes: a construção dos diálogos (internos e externos) e o caráter dos personagens.
No primeiro caso, faz parte da linguagem de cada arte ter um ponto forte em relação a outra. No cinema, expor o pensamento de um personagem sem quebrar a imersão não é tão trivial quanto no romance. Em Orgulho e preconceito, isso se intensifica nos pensamentos de Elizabeth; humanos, falhos, mas ainda assim elevados. Como a história e o estilo estão fortemente ligados na escrita, esses momentos ajudam a engrandecer todo o conjunto da obra.
Quanto ao caráter dos personagens, os diálogos também ajudam bastante a reforçar sua autenticidade… Quando Elizabeth descobre, por meio de uma carta, que Darcy não é o homem que ela pré-julgava que ele fosse, acontece um conflito muito grande na sua cabeça: “devo seguir a minha opinião sobre ele ou a verdade?”. A maturidade que se exige em admitir um erro próprio, por mais doloroso que seja, é uma virtude, e merece ser elogiada. Do mesmo modo, quando Darcy aprende que suas ações causaram um sofrimento alheio, ele trata de corrigi-las sem buscar crédito com ninguém; simplesmente faz o certo porque quer.
Essa postura de cada um — reconhecer seus erros e agir sobre eles — e a forma como ela é exposta elevam ainda mais o nível do romance.
Veredito
Orgulho e preconceito não é a melhor história de amor que já li nem vi na tela da televisão… Ainda assim, tanto a experiência cinematográfica quanto a literária são agradáveis, além de passarem uma lição importante: reconhecer e superar os próprios defeitos é necessário para amar bem.
Além disso, a forma de Jane Austen de contar essa história faz toda a diferença: personagens afrontosos e irônicos, reflexões honestas e edificantes, tudo coopera para transformar uma história simples em um clássico da literatura mundial.
Pax et bonum!