
Diante da inviabilidade que é aprender as principais línguas da literatura mundial, muitas vezes teremos de nos contentar com adaptações ao português.
Há umas semanas, um amigo aproveitou as férias do seminário e veio visitar a mim e a outros amigos em São José. Nossa programação da tarde: ler Sonho de uma noite de verão enquanto comíamos uns petiscos. É impressionante que, até hoje, só li uma peça de Shakespeare por iniciativa própria; mas o autor é tão chamativo e influente que, por outros amigos, já contam quatro peças e um pedaço de Otelo no meu histórico. Ele vem até nós, leitores, queiramos ou não.
Pois bem, na tarde que separamos para esse encontro, fizemos o nosso ritual padrão: a cada cena, todos escolhíamos um personagem e o interpretávamos nela. Porém, quando nosso amigo seminarista foi ler a fala dele, houve um estranhamento: ela era diferente da versão que tínhamos no celular… Por coincidência, minha digníssima havia levado um calhamaço com todas as peças em inglês! Dada a diferença dos textos, passamos a tarde avaliando o quanto cada tradução divergia do original. Depois dessa história, achei pertinente comentar um pouco sobre o assunto.
Efeito borboleta
Para ilustrar o meu ponto, coloco aqui — da esquerda para a direita — um trecho nas versões em inglês, na tradução da Bárbara Heliodora (usada pela maioria do grupo) e na da Beatriz Viégas (usada pelo seminarista):
Lysander! What, removed?Lysander, lord!
What, out of hearing? Gone?
No sound, no word?
Alack, where are you?
Speak, an if you hear.
Speak, of all loves!
I swoon almost with fear.—
No? Then I well perceive you are not nigh.
Either death or you I’ll find immediately.
Lisandro! Foi-se?
Onde está, querido?
Não ouve?
E eu não escuto um só ruído!
Onde está?
Diga, se está escutando;
Fale, amor!
Eu ’stou quase desmaiando.
Silêncio! Ele então não está por perto;
Vou buscá-lo — ou à morte — no deserto.
Lisandro! Mas, como? Está longe?
Lisandro! Meu senhor!
Mas, como? Não me ouve? Foi-se embora?
Nenhum som, nenhuma palavra?
Meu Deus, onde está você?
Fale, se está me ouvindo.
Fale, em nome de todos os amores verdadeiros!
Quase desfaleço de susto.
Nada? Então agora entendo que você não está perto de mim.
Um dos dois encontrarei sem mais demora: ou você, ou a morte.
É evidente que as duas traduções não têm nada a ver. Claro, a ideia geral continua sendo passada, mas se vê que a Bárbara preza mais pela poética, enquanto a Beatriz tem um foco mais literal, reproduzindo as palavras correspondentes na nossa língua. A princípio, o foco nas rimas parece mais agradável, deixa o texto mais pomposo; porém, também é visível que ela traz mudanças drásticas: trocar um “Nada?” de receio e um “Silêncio” de frustração fornecem interpretações diferentes sobre o humor da personagem; chamar o amado de “querido” ou de “Meu senhor” são formas de tratamento de épocas diferentes. Quando se estende essas mudanças para a peça inteira, me pergunto o quanto pode divergir a percepção da história e dos personagens por uma fonte ou por outra.
Encontro com um rival
Em contraste, nos últimos dias estive lendo Anna Kariênina, de Liev Tolstói (que odiava Shakespeare), na tradução do Rubens Figueiredo. Desse tradutor, também já havia lido Pais e filhos (Ivan Turguêniev); e em ambas as leituras, senti-me como num banquete; mais de uma vez, precisei forçar-me a parar uma leitura prazerosa e fluida para cumprir minhas obrigações.
Diferentemente de Shakespeare, eu não sou capaz de comparar traduções de Tolstói ou de Turguêniev, dado que ainda não sei russo. Meu intuito aqui não é o de apontar qual tradução é a melhor, até porque existem diferentes critérios de avaliação, e cada tradutor escolhe em qual deles focar seus esforços. Todas elas farão algum sacrifício em prol de transmitir adequadamente uma riqueza do texto.
Então, o que procurar?
Diante dessa discussão, tenho de acrescentar: ler uma má tradução de um clássico ainda é melhor do que não lê-lo em absoluto. Por mais que alguns detalhes na escolha da tradução tragam uma perda, permitir a leitura de um autor do cânone literário em um outro país traz uma riqueza bem maior. Ver a retratação do niilismo em uma personagem complexa, como Bazárov em Pais e Filhos, certamente traz questionamentos únicos, necessários para fortalecer nossas crenças.
Buscar boas traduções não se trata de uma preocupação puritana com a estética de uma obra, mas de ter um contato completo com a literatura: agradável e edificante. Mais de uma vez ouvi histórias de gente traumatizada com Ilíada, cujo texto incompreensível foi o motivo de abandonarem a leitura. Não é para ser assim. Conhecer a história de uma obra já é bom, mas se temos a possibilidade de lê-la com uma escolha de palavras mais adequada, que transmite melhor a riqueza do texto, por que não? Assim, se ele continuar difícil, podemos desconfiar de que somos nós que devemos nos esforçar; e, na minha opinião, isso é um bom sinal, pois estaremos em busca de um aperfeiçoamento pessoal, para melhor entendermos o que os gênios têm a nos ensinar do caixão.
Pax et bonum, fratelli!