
No Gênesis, somos apresentados à primeira tentação do homem e da mulher: “sereis como deuses”.
Há alguns dias, assisti a um dos primeiros vídeos do João Marcos, a respeito do problema filosófico do Mal, que se resume à pergunta: se Deus é onipotente, onisciente e onipresente, por que existe mal no mundo até mesmo com crianças inocentes? Longe de querer responder a uma pergunta para a qual nem Bento XIV julgava saber a resposta, o João foi numa outra linha que permeia a literatura e o cinema, passando por Death Note, Crime e Castigo, Breaking Bad e até mesmo Shrek: dado que existe esse mal, criarei um mundo melhor do que o de Deus. É um vídeo muito bom, recomendo.
Porém, isso me levou a um questionamento: o homem comum não tem a mesma oportunidade do Light de “corrigir” a criação, mas ainda assim somos ensinados a temer o Diabo. Por que ele se interessaria por nós?
O problema do indivíduo

Aproveitando o período de Natal, relembremo-nos do clássico A felicidade não se compra: depois de uma vida frustrada por não realizar seu sonho de viajar o mundo, George Bailey enfrenta um fracasso financeiro e julga que teria sido melhor nunca haver nascido; então, o anjo Clarence mostra como seria o mundo se George nunca tivesse existido, e podemos ver quão impactante é a vida de um único ser humano na sua sociedade local, que são a família, os amigos e o seu trabalho.
O Diabo vê que podemos influenciar outras pessoas; se não pela fala, nossos hábitos e posturas diante dos problemas podem ser tanto ocasião de queda (“Se ele não se esforça tanto e não sofre consequência, também não irei me esforçar.”) como de desenvolvimento (“Admiro-o e ele é diligente nos seus afazeres, portanto farei igual!”).
A teologia por trás

Dada essa realidade do homem comum, mais ligada à influência local do que a transformação do mundo, o vídeo do João me trouxe um insight, trazendo essa tentação da serpente mais próxima de nós do que da megalomania de Raskolnikov e de Light Yagami: se há tanto mal em mim, será que eu não poderia criar a mim mesmo melhor do que Deus o fez?
Pensei nisso ao avaliar como julgamos o nosso uso do tempo como mais precioso do que o chamado de Deus: ficarei um tempo a mais no Instagram para me divertir, será mais prazeroso do que ler; trabalharei até mais tarde, assim proverei pela minha família. Nossa mente e o demônio são mestres em criar narrativas convenientes para justificar nossas atitudes, muitas vezes mascarando-as de virtude (estou sendo a melhor versão de mim mesmo). Porém, quando a realidade se impõe (olhamos o relógio no canto da tela ou a esposa nos encara ao chegarmos em casa atrasado), envergonhamo-nos tal como Adão diante de Deus; percebemos como perseguimos uma mentira ao desviar de um pequeno esforço; e então, correr atrás do prejuízo se torna mais oneroso do que simplesmente cumprir seu dever.
Por isso, quanto mais o demônio conseguir nos convencer de qualquer dessas narrativas, mais satisfeito ele ficará; assim como diz C.S. Lewis em Cartas de um diabo a seu aprendiz (se Deus quiser ainda conseguirei publicar essa resenha), a Satanás importa muito mais machucar a Deus desviando-nos de Seu caminho do que se rejubilar com nossa miséria. Portanto, se desviamos desse projeto de Deus — a santidade — para percorrermos a nossa própria noção de perfeição, a frustração será certa.
Nossa esperança

Inicialmente, até pensei em esperar a passagem da Solenidade do Natal, nem imaginava ser possível conectar essa ideia de “criar-me melhor do que Deus” com o nascimento do Senhor. Porém, em Sua providência, o texto acabou se encontrando melhor do que soava em minha cabeça. Bendito seja Deus.
Pois bem, superando toda a obra da Criação, Deus cumpriu sua promessa ao fazer sua κένωσις, encarnando-se e nascendo entre os animais para, anos mais tarde, oferecer-se como sacrifício em amor aos homens. Assumindo a condição humana, Deus concedeu-nos um referencial e um auxílio para que, diante das dificuldades, não desviemos do cumprimento de nossas obrigações na busca de alívio nem nos frustremos com essa constante cobrança: se o Senhor do Universo quis humilhar-se nascendo numa manjedoura ao invés de num palácio, beijou o instrumento de sua morte e, no final, subiu glorioso aos céus, também nós podemos depositar nossa esperança de que, ao final dessa guerra espiritual — que perpassa nosso atarefado cotidiano —, há uma promessa a ser cumprida, uma luz que acalenta durante essa árdua trajetória, e essa luz é o Cristo Jesus.
Feliz e Santo Natal, fratelli!