A vida e a literatura – parte 2

Já sabemos que a literatura tem a capacidade de nos conduzir a uma mudança de vida.

Mas seria ela a única forma de alcançar isso?

No periódico da semana passada, comentei sobre o poder da literatura: como ela pode, aos poucos, transformar nossa vida, nos trazer um conhecimento mais elevado. Porém, milhares de pessoas ao longo dos séculos foram sábios desconhecidos, e é pouco provável que elas tivessem acesso aos clássicos do mesmo jeito que nós temos. Pois então, o quão necessária é essa experiência literária?

Um mau exemplo

Para prefigurar o ponto que quero trazer, gostaria primeiro de contar a história de Campos Lara, protagonista de “O Feijão e o Sonho”, de Orígenes Lessa. Campos era um homem intelectual, que tinha o sonho de fazer sucesso com sua poesia. Mas, para fazer isso, começou a deixar sua esposa Maria Rosa e seus filhos de lado, de modo que eles cresceram aos trapos, com dificuldades desnecessárias.

Ainda que pareça cômica, essa história mostra uma tentação comum no meio intelectual: a de se isolar de todas as coisas em busca de um conhecimento mais puro. A leitura de bons livros é realmente prazerosa, as sinapses ocorrem de um jeito diferente, proporcionando um prazer mais lento. Porém, uma pessoa que deixa sua vida de lado para se dedicar só a isso não me parece diferente de um glutão vivendo às custas dos pais, sem buscar fazer nada útil com o tempo que lhe é dado.

De que adianta ter milhares de histórias acumuladas na memória, mas não dar atenção a quem te ama? Está enchendo a imaginação de coisas boas, mas não as põe em prática. E, sinceramente, o quanto se entende de verdade sobre as pessoas, se não se interage com elas?

Uma dose de normalidade

No Brasil, é pouco comum ter o hábito de ler, mas é inevitável lidar com os outros. Todos nascem, crescem, fazem amigos, muitos se casam. No vasto universo de pessoas que passam pela vida de cada um, não é preciso ter lido Machado para entender o que é um egoísta; é bem provável que já se tenha convivido com algum. Caso contrário, a impressão que ficaria ao finalizar “Memórias Póstumas” seria algo como “Ok, entendi que as atitudes de Brás são más, mas o que todas elas têm em comum?”

Quando se convive com essa variedade de pessoas, o efeito é semelhante ao de ler muitos livros: a imaginação cria uma gama de experiências que, inevitavelmente, se conectam a um conceito fundamental por trás; um conceito que nos diz algo sobre o ser humano. E quando se extrai esse conceito, dali é possível retirar uma sabedoria. Nesse exemplo, como agir enquanto pessoa ou como lidar com elas, imitando-as ou as tolerando.

Considerando todas essas experiências das quais não podemos escapar, acho inviável pensar que não existiram uma gama de cidadãos comuns e sábios, que nunca precisaram de um clássico para entender como bem viver. E se tivessem o contato com a história e as reflexões passadas na obra, é possível que soubessem conectá-las com algum saber prático que adquiriram. É exatamente o oposto dos intelectuais isolados: se aprofundam tanto nas palavras, que encontram pouca correspondência com o mundo de carne e osso.

Conclusão

Meu ponto é que não se deve optar entre não ler nada ou não fazer nada além de ler. Assim como existem maus leitores, existem pessoas que não aprendem com o que a vida lhes ensina. O saber prático e o teórico não se excluem, mas se equilibram. Ambos são um sistema que se retroalimenta e que nos insere mais profundamente no mundo: a boa literatura nos faz viver melhor, e viver bem nos ajuda a captar as entrelinhas de cada texto. E ambos são semelhantes, pois nos ensinam por meio de experiências. A diferença é que a literatura, diferente da vida, não está confinada aos tempos atuais; ela possibilita vivenciar eventos do passado, representar o presente e imaginar o futuro, evidenciando aspectos comuns a todas as épocas. E unir esse saber atemporal ao que experimentamos com a nossa vida, é o que nos faz alcançar aquele conhecimento profundo.

Então, se almejamos um entendimento completo sobre o mundo, a literatura é, sem dúvida, fundamental nesse processo. Mas é preciso, primeiramente, estar vivo para ler. Não basta só ter o material, é preciso um conhecimento anterior para saber experimentá-lo. E nisso entra a vida. A literatura não é o principal.

About the author

Sou engenheiro e escritor. Faço artigos compartilhando meu processo criativo, reflexões pessoais e escrevo resenhas sobre os livros e filmes que vejo.

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