IA e Arte: um embate histórico

Em recente polêmica sobre IAs e artistas, muito se tem debatido sobre tecnologia, Direito, futuro da Arte…

O que se pode extrair dessa confusão?

Quando vi a trend das imagens geradas por IA pelo Gepeto, não resisti e criei minhas próprias versões com fotos do meu álbum de formatura. Nunca vi nenhum dos filmes do Studio Ghibli, então tudo que eu disser é passível de crítica, mas que são filmes bonitos, são.

Primeiras polêmicas

Após gerar essas imagens e ver vários outros seguindo a tendência, começaram a aparecer posts de artistas indignados com ela; dizendo que Arte de IA não é Arte, que a OpenAI estava roubando propriedade do Miyazaki e que ela ameaçava o futuro da Arte… Pois bem, isso tudo gerou um monte de burburinhos na minha cabeça, os quais não fui capaz de conter. Por isso, resolvi trazer a discussão para cá, sem a pretensão de opinar (quem sou eu na fila do pão), mas de trazer alguns questionamentos e tentar esclarecer para mim mesmo essa polêmica.

Quando esses artistas usaram a palavra “roubo”, imediatamente pensei em Propriedade Intelectual e pirataria… Um perigo que todo escritor teme, mas que me faz sentir um patinho feio, por ter uma opinião diversa (tópico para outra ocasião). Mas pensar sobre essa perspectiva só me fez entrar em outro problema, pois a minha opinião sobre pirataria é baseada em como ela me afeta, e nem tanto como afeta os artistas como um todo. É fácil para mim não ligar tanto para os efeitos das Artes de IA quando esse não é simultaneamente o meu ganha-pão e a expressão de tudo em que acredito como pessoa, como é o caso do Miyazaki…

E, depois de ler a análise jurídica do meu amigo André, uma parte das minhas dúvidas foram sanadas. Mas olhar apenas para a lei dessa situação não é suficiente…

A alma do artista e do tecnólogo

Se eu fosse fazer uma tertúlia com meu padre sobre o assunto, ele certamente puxaria a etimologia das palavras arte e tecnologia para dizer o papel de cada um. Mas creio que não é necessário ir tão longe. Um tópico que vivo revivendo é o da beleza, eu não resisto… E ela é essencial no papel a que atribuo ao artista: trazer beleza para a vida (que já é naturalmente exaustiva) de modo a nos conectar com valores acima das coisas materiais. O do tecnólogo, pelo contrário, se concentra mais em usar esses materiais para tornar a vida mais agradável.

Escrevendo agora, me parece peculiar como a engenharia tem essa base puramente materialista, mas a matemática usada pode ser altamente abstrata, muitos de seus estudantes se interessam por literatura e Filosofia… Enfim, apenas uma pausa na sequência, porque achei interessante a antítese.

Em meio à polêmica, também vi pessoas do outro lado acusando esses artistas de Ludismo: como se os que reclamam do uso de IA estivessem na mesma situação dos trabalhadores de indústrias que quebraram as máquinas que roubaram seus empregos na Revolução Industrial; ou, num exemplo mais silencioso, dos acendedores de postes que deixaram de existir com o advento da eletricidade.

Digo tudo isso para trazer o ponto que diferencia o tecnólogo e o artista: ambos querem contribuir para a sociedade, o primeiro ao torná-la mais otimizada, o segundo ao torná-la mais consciente do mundo em que vive. Para além da IA, a tecnologia sempre foi algo que rompe nossa forma de viver; e certamente acredito que ninguém que está lendo gostaria de viver como um Amish, sem eletricidade ou internet. Mas eu trago o questionamento: você prefere uma sociedade iluminada pelos postes da esquerda ou da direita?

Conclusão

Como mencionei, não é meu intuito dar um veredito. Minha opinião não está formada, mas acredito que a reflexão pode orientar o debate, de modo a esclarecer o papel da IA (ou da tecnologia, como um todo) e da Arte na nossa vida, e que talvez ambas não sejam inimigas.

Pax et bonum, fratelli!

About the author

Sou engenheiro e escritor. Faço artigos compartilhando meu processo criativo, reflexões pessoais e escrevo resenhas sobre os livros e filmes que vejo.

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