
Quando a cor da cidade parece impossível de se achar e a rotina suga toda nossa energia…
Numa promoção de livros recente, pedi algumas sugestões ao Gepeto para expandir meu repertório de autores, ir além do estilo dos meus xodós: quando ele me recomendou Ítalo Calvino, as descrições de seus livros me possuíram de modo análogo ao fantasma de Brás Cubas, o que não é pouca coisa…
Então, após terminar a escrita de Dois Patinhos e ler a descrição “Em plena selva de asfalto e cimento da cidade industrial, o operário Marcovaldo busca a Natureza. Mas existe, ainda, a boa e velha Natureza? Ou tudo não passa de imitação, artifício e engano?“, foi inevitável a leitura!
Quem é esse sujeito?
Marcovaldo, cujo nome parece tirado de um épico de cavalaria, não poderia ser menos heroico: pai de uma família que sobrevive de boleto em boleto, trabalhador de uma empresa sem nome ou produto específico e que vive numa cidade genérica; poderia ser qualquer um de nós. E é justamente o que Calvino almeja: criar uma persona que, apesar de características únicas — como sua melancólica comicidade — se torna semelhante o suficiente para assimilarmos sua maneira de elevar o espírito no caos urbano e aplicá-lo às nossas circunstâncias.
Atuando mais como uma coletânea de contos do que uma narrativa única, As estações na Cidade nos imerge nas inusitadas aventuras de Marcovaldo, uma estação do ano por vez: desde uma raiz de cogumelos crescendo no meio da calçada, passando pelo coelho que simboliza a ruptura do homem com a natureza e com a liberdade, até chegar às encomendas vestido de Papai Noel, acompanhamos um homem que, apesar das dificuldades e do cenário desmotivador, não deixa de divertir-se, amar a família e cultivar um ambiente de trabalho saudável.
Refogado, Rousseau
Quando falei de Na Natureza Selvagem, exemplifiquei diferentes arquétipos do bom selvagem, pessoas cuja essência boa só seria revelada fora da sociedade, em contato com a natureza, e como elas falharam. Marcovaldo traz justamente o que acredito ser o equilíbrio entre o selvagem e o urbano. Afinal, ele não idealiza a natureza — como se vê no episódio em que leva os filhos para tomar um ar puro —, mas tampouco se conforma com seu ambiente, quando assume responsabilidade por uma planta na fábrica.
Ao mesmo tempo em que sonha com um universo mais colorido, Marcovaldo tempera os dias com pequenas alegrias e lembranças da natureza, de modo que o mundo real se aproxima, dentro das suas circunstâncias, ao máximo possível desse sonho.
E é assim que acredito que devemos agir: sem escapismos bucólicos ou conformação ao ritmo ansioso urbano, mas mantendo um espírito leve para encontrar ou criar as oportunidades de, no cotidiano, atingir um meio-termo: respirar e admirar a paisagem durante a pausa no trabalho, deixar o celular de lado quando sair de casa… Enfim, são esses pequenos gestos que nos ajudam a enxergar com clareza, ver que o mundo moderno não é inteiramente problemático.
Parabéns, Ítalo, chamaste minha atenção!
Pax et Bonum, Fratelli!