Na Natureza Selvagem

Um jovem desiludido e de hercúlea força de vontade abandona o mundo moderno para ir atrás da própria essência, em contato exclusivo com a natureza, afastado dos homens.

O que poderia dar errado?

Nos últimos meses, tem ficado mais complicado seguir o propósito inicial da página; tenho demorado a ler livros, e os que li não senti muita vontade de comentar. Os filmes, portanto, acabarão sendo protagonistas por um tempo.

Comecemos por A Natureza Selvagem, o qual me chamou a atenção desde que ouvi sua premissa em uma palestra do Opus Dei sobre amizade e apostolado: Alex Supertramp, um jovem culto e com futuro promissor, apaixonado pelos clássicos e frustrado com a hipocrisia e as mentiras da burguesia americana resolve fugir de tudo e encontrar quem o ser humano é de verdade, aceitando uma exigente missão — chegar até o Alaska sozinho e lá sobreviver dos frutos da natureza.

Virtus in medium est

Inicialmente, comecei a questionar as atitudes de Alex; parecia um jovem rebelde e hipócrita (queimou o próprio dinheiro, mas arranjava empregos para sustentar sua viagem; acreditava na solidão, mas rotineiramente mantinha companhias) com sede de provar-se. No entanto, ao longo da sua jornada, fui vendo que não era tão superficial: ele tinha um trauma por conta das brigas e farsas familiares, a escola sempre o incentivava a ter mais coisas e coisas, enquanto os livros de sua coleção apontavam para pensamentos elevados, para a profundidade do ser humano e da beleza do mundo intocado…

Para além de ideais acima do materialismo, Alex se mostra extremamente determinado, aceitando chutes, frio e outras condições às quais ele poderia negar a qualquer hora e voltar para o conforto do seu lar e construir uma carreira de sucesso. Porém, essa determinação foi utilizada para um ideal um pouco extremo, dado que ele não queria a companhia das pessoas, algo necessário para o nosso desenvolvimento. Valia a pena?

O Bom Selvagem

É evidente que Alex encarna a figura do Bom Selvagem de Rousseau: o homem nasce bom, a sociedade é o que o corrompe. No entanto, vemos como sua postura pode ser prepotente e exagerada; e como ela tragicamente levou à sua morte. Isso me fez lembrar de outro personagem que encarna outro arquétipo do Bom Selvagem: Dutch van der Linde.

Desde Memórias Póstumas de Brás Cubas, tem-se fortalecido em mim a noção de que “As ideias fixas são uma das coisas mais perigosas para o ser humano”. O emplastro Brás Cubas tornaria o criador célebre e admirado; o Alaska comprovaria a Alex como a sociedade revela o pior do homem; o Taiti seria a vitória de uma gangue contra a civilização, que castra o homem.

Dutch, assim como Alex, tem a noção de que o homem, com suas normas e aparências externas, mais esconde e engana quem ele é de verdade do que revela suas qualidades. No entanto, ele vai um pouco além: em vez de amar as flores e a harmonia entre homem e besta, ele atira nas pessoas por dinheiro e por discordarem dele (assistam o discurso abaixo na íntegra, vale a pena). Não satisfeito em dar o troco na civilização industrial por tentar conter a selvageria natural do ser humano, ele arrasta pessoas de bom coração, mas ingênuas, junto de assassinos oportunistas.

Ao ver este filme, lembrei na hora do Index, e como, por séculos, católicos foram proibidos e alertados da má literatura, capaz de corromper o espírito, incitar aventuras irreais na cabeça dos jovens e conduzir as almas ao inferno. A acusação do meio sempre me pareceu precipitada; no entanto, gradativamente tenho visto os perigos da má filosofia, e como pessoas podem utilizá-la para justificar suas atrocidades, trazendo a sua própria ruína e, muitas vezes, a dos outros.

Estética

Até mesmo em questão visual as obras se parecem: nas filmagens da natureza, sempre se destaca sua grandiosidade; já nas urbanas, se vê barulho, burocracias e incômodos, tal qual a primeira visita a Saint Denis.

Por um momento, esses jogos de imagens nos incitam a concordar com essa visão do Bom Selvagem, como se a sociedade de fato enfeasse o mundo. No entanto, sabemos que a tecnologia traz muitos confortos e oportunidades que jamais sonharíamos em tempos passados. É preciso atentar-se e olhar para o mundo objetivamente, sem um juízo apressado; talvez assim encontramos o equilíbrio entre o desenvolvimento material e o espiritual, ao invés de preferir um ao outro, como os capitalistas e os naturalistas vendem.

Veredito

Na Natureza Selvagem é um filme gostoso, com uma ótima trilha sonora/filmagem e que estimula a uma reflexão: até onde vale a pena ir na contramão do mundo? E como terei força para isso? O próprio filme já nos aponta para uma resposta, com a belíssima frase: A felicidade só é real quando é compartilhada. Trago aqui outra célebre frase para que sejam motivados a ver o filme: Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Pax et bonum, fratelli!

About the author

Sou engenheiro e escritor. Faço artigos compartilhando meu processo criativo, reflexões pessoais e escrevo resenhas sobre os livros e filmes que vejo.

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