Não leia Shakespeare!

Lembro-me da primeira vez que li “O Mercador de Veneza”. Eu me diverti e gostei da história, mas não entendi o que tornava a obra tão boa.

O que eu perdi?

Antes que me crucifiquem pelo título, já quero adiantar: eu adoro Shakespeare! Esse artigo não tem o propósito de desincentivar a leitura do autor, nem de outros clássicos. Pelo contrário, a minha ideia é contar um pouco da minha história com Shakespeare e outros elementos que me ajudaram a entendê-lo um pouco melhor; e, quem sabe, dar alguma ideia útil para que outros aproveitem melhor as suas peças.

Uma jornada solitária…

Inicialmente, fui ler “O Mercador de Veneza” do mesmo jeito que qualquer outro livro: despretensiosamente, prestando atenção apenas ao essencial da história, sem focar muito nos detalhes. E me divertia com as cenas de Pórcia, a intriga entre Shylock e Antônio; e especialmente no ato final, no qual Shylock tem a resolução da dívida que tanto clamava e o confronto de Pórcia e Nerissa com seus maridos. Mas não tirei nenhuma lição grande daquilo e nem tive um divertimento tão explosivo, em comparação à minha primeira leitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou de “1984”, por exemplo.

Mas sem necessidade

Um ano e meio depois, as coisas mudaram… Um amigo me chamou, junto com os meus colegas de alojamento, para irmos à casa dele tomar vinho e ler Shakespeare. Achei o convite inusitado e aceitei. Depois dos assuntos cotidianos, começamos a leitura, mas numa dinâmica diferente: iríamos interpretar os personagens. Sem uma exigência profissional de atores, mas a ideia era tentar captar a emoção de cada cena na nossa fala. E isso já foi um diferencial: as peças de Shakespeare não têm narração ou descrição, toda a história está contida em diálogos sem indicação de tom ou ritmo. Fazer esse exercício já exigiu que eu prestasse mais atenção em cada diálogo e nas personagens, para decifrar o andamento da história.

Além disso, sempre fazíamos uma pausa entre cenas e atos, para comentarmos as nossas impressões sobre cada parte da história, sobre os personagens, o que podíamos aprender sobre a época e o tema explorado na peça. Ver a consequência de Shylock preferir a justiça à misericórdia, a valorização de Pórcia do casamento; toda essa discussão enriqueceu muito o texto para mim. E quando o grupo partiu para ler Romeu e Julieta, com mais convidados e novas impressões sobre o texto, deixou tudo ainda mais prazeroso.

A felicidade só é real quando é compartilhada

Mencionei no periódico da semana passada a importância de nos recolhermos, acalmarmos os barulhos externos e meditarmos sobre a nossa vida. Mas além do racional, somos seres humanos com sentimentos, e desejamos compartilhar das nossas alegrias e tristezas com amigos ou com a família. Se não conseguimos parar de ler um livro até terminá-lo ou se vemos um filme que explode nossa cabeça, queremos falar deles para alguém.

Essa experiência com Shakespeare deixou bem claro para mim: mesmo com uma leitura atenta, é improvável pegar todos os detalhes de uma vez. Mas se estamos com pessoas com os mesmos interesses, com outras histórias de vida e perspectivas, é possível extrair ainda mais possibilidades; o livro se torna algo maior do que esperávamos.

O ponto a que eu queria chegar não era tanto sobre Shakespeare em si, mas sobre cultivar uma postura e um ambiente adequados à sua leitura. Talvez os nossos amigos não estejam interessados em ler os clássicos, mas há gente por aí que está, e com eles podemos ter uma experiência ainda mais profunda de um interesse nosso. Então, leiam Shakespeare! Mas tenham esse cuidado de lê-lo com atenção, focando nas minúcias do texto; talvez até lê-lo em voz alta, isso ajuda na percepção da estrutura do diálogo. E discutam o que acharam com outras pessoas, faz parte da vida ver outros pontos de vista para alcançar uma sabedoria universal.

Pax et bonum, fratelli!

About the author

Sou engenheiro e escritor. Faço artigos compartilhando meu processo criativo, reflexões pessoais e escrevo resenhas sobre os livros e filmes que vejo.

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