
Todos morreremos; podemos construir um vasto patrimônio, criarmos nossa família, e passar nossos últimos anos desfrutando dessa obra…
No último Dia dos Pais, antes de começar mais uma semana de trabalho, folheei minha lista de filmes e Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas me chamou a atenção: um filho frustrado, vendo o pai próximo da morte e com o neto do mesmo próximo de nascer, resolve descobrir a versão real de suas histórias fantásticas, de modo a finalmente conhecê-lo.
Sem expectativas, o filme me fisgou de um jeito único: misturando o storytelling de Forrest Gump (meu segundo filme favorito) com um realismo mágico digno de Gabriel García Marquez (autor favorito de minha mãe), foi providencial que esse filme aparecesse justamente no Dia dos Pais para me fazer pensar a respeito de um assunto: o legado de um homem.
Desentendimento de gerações

Numa família equilibrada, é natural que ocorra o seguinte ciclo da visão do filho sobre o pai: a criança o vê como um herói; o adolescente se afasta, dizendo que não é compreendido; mais velho, tenta fazer as pazes, entendendo que ele não é perfeito, mas fez seu melhor.
No início da história, Edward Bloom rouba a cena no casamento de Will, seu filho, contando a história do maior peixe que já pescara, justamente no dia em que Will nascera, utilizando sua aliança de casamento. Indignado com o pai, que insiste em contar a versão mentirosa daquele dia, Will evita o pai por anos, até o momento em que o vê enfrentando a doença do século. Então, antes que ele parta, decide extrair dele a história real de sua vida.
Porém, está na natureza de Edward contar histórias, não a de ser um propagador de fatos. Por isso, ao acompanharmos sua trajetória, veremos seu encontro com um gigante gentil, gêmeas siamesas dançarinas, um amor à primeira vista que se dispõe a trabalho escravo… E mesmo à beira da morte, continua com essas fantasias, o que ele pode ter a esconder?
Dever e legado

Para além da história de Forrest Gump, Edward me lembrou de George Bailey, de A Felicidade não se Compra. Ambos tiveram uma vida repleta de desafios; porém, enquanto George olha para suas desavenças como um empecilho para os seus desejos (conhecer o mundo), Edward utiliza sua determinação para superá-las a qualquer custo; e se ele pode ajudar alguém, ele assumirá como sua responsabilidade.
No final, ao presenciarmos a sua morte, vemos uma multidão de pessoas transformadas pela vida de um único homem. Com a frase dita por Edward contra as acusações do filho — “Em toda a minha vida, não fiz nada além de ser eu mesmo” —, vemos como o encontro da identidade e o propósito de um homem são um motor poderoso para a humanidade; ou, pelo menos, para o lago ao redor desse grande peixe.
Conclusão
Há um terceiro motivo para eu ter adorado esse filme: assim como Flipped e Forrest Gump tocam profundamente em aspectos meus, Edward me lembrou o meu pai, especialmente pelo sorriso com o qual ele conta suas histórias. E, mais do que por fotos ou vídeos, é por essas histórias que a memória de um pai vive através dos filhos.
Poderia deixar uma mensagem muito atrasada de Dia dos Pais (há tempos enrolo para publicar esta resenha) inspirada por esse filme, mas acredito que valha mais a pena cada um vê-lo e extrair sua própria versão. Mais do que um texto, creio que é mais importante viver o que Peixe Grande tem a nos contar.
Pax et bonum, fratelli!